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Atualizado: Jul 11

Pedro e João, espíritas, eram amigos de longa data. Embora Pedro fosse mais ponderado e afeito ao estudo doutrinário, João, por sua vez, era um entusiasta, ardoroso, arrebatado, intenso.

Na saída da casa espirita que frequentavam, sentiam-se regozijados, e enquanto caminhavam em direção a seus lares, um na companhia do outro, a amizade era alimentada. E o papo corria solto.

-Pedro, disse o amigo, recebi no WhatsApp uma mensagem fantástica.

E ante o silêncio do outro, continuou.

– É uma revelação extraordinária: no mundo espiritual o espírito pode engravidar e ter filhos....

Pedro respirou fundo, e falou:

- amigo, precisamos estudar mais a Doutrina Espírita, nos debruçando nas Obras de Allan Kardec. Há muitos Espíritos e escritores encarnados que não possuem a perfeita compreensão da lógica espírita e fantasiam...

- Não, falou rápido João: o Espírito é bastante conhecido e o médium já está famoso.

- Ah, João, recorde que o Cristo já alertou, na parábola do Joio e do Trigo[1], a respeito da ação dos inimigos da Causa, que semeiam ideias falsas capazes de confundir aos desavisados e impedir que se libertem da ignorância. Há escritores, espíritos ou homens, que não possuem luzes suficientes para expor apenas a verdade.

E prosseguiu: - Allan Kardec explica que apenas “os Espíritos chegados ao último grau de perfeição estão isentos de erros; os outros, por melhores que sejam, nem tudo sabem e podem enganar-se[2].

- O Codificador, com sabedoria, acrescenta que não devemos aceitar tudo quanto vem do mundo invisível, sem antes submete-la ao controle da lógica.

- João, João, diz o amigo citando Kardec:

A prática do Espiritismo é cercada de tantas dificuldades, os Espíritos enganadores são tão sabichões, tão astuciosos e, ao mesmo tempo, tão numerosos, que nunca nos armaríamos de precauções suficientes para frustrar seus planos. Importa, pois, rebuscar com o maior cuidado os indícios pelos quais eles podem se trair. Ora, esses indícios estão, ao mesmo tempo, em sua linguagem e nos atos que provocam[3].

Já estavam chegando à residência de João, quando Pedro sugeriu a ele que lesse a síntese das recomendações de Kardec a esse respeito, que se encontram na Revista Espírita de julho de 1860. Disse que ele poderia encontrar esse material na internet, no site da Federação Espírita Brasileira.

Logo após o rápido lanche, buscou imediatamente a página sugerida, encontrando nela valiosa lição e meditou profundamente, tentando assimilar toda a sua abrangência:

“Quando uma lógica é rigorosa[4] como dois e dois são quatro, e as consequências são deduzidas de axiomas[5] evidentes, o bom-senso geral cedo ou tarde faz justiça a todos esses sofismas. Acreditamos que as proposições seguintes têm este caráter:

1o Os Espíritos bons não podem ensinar e inspirar senão o bem; assim, tudo que não é rigorosamente bem não pode vir de um Espírito bom;

2o Os Espíritos esclarecidos e verdadeiramente superiores não podem ensinar coisas absurdas; assim, toda comunicação eivada[6] de erros manifestos ou contrários aos dados mais vulgares da ciência e da observação, só por isso atesta a inferioridade de sua origem;

3o A superioridade de um escrito qualquer está na justeza e na profundidade das ideias, e não na forma material e na redundância do estilo; assim, toda comunicação espírita em que há mais palavras e frases brilhantes do que pensamentos consistentes, não pode provir de um Espírito verdadeiramente superior;

4o A ignorância não pode imitar o verdadeiro saber, nem o mal arremedar[7] o bem de maneira absoluta; assim, todo Espírito que, sob um nome venerado, diz coisas incompatíveis com o título que se atribui, é culpado por fraude;

5o É da essência de um Espírito elevado ligar-se mais ao pensamento do que à forma e à matéria, donde se conclui que a elevação de um Espírito está na razão da elevação das ideias; assim, todo Espírito meticuloso nos detalhes da forma, que prescreve puerilidades[8], numa palavra, que liga importância aos sinais e às coisas materiais, acusa, por isso mesmo, uma pequenez de ideias e não pode ser realmente superior;

6o Um Espírito verdadeiramente superior não pode contradizer-se; assim, se duas comunicações contraditórias forem dadas sob um mesmo nome respeitável, uma delas é necessariamente apócrifa[9]; e se uma for verdadeira, será aquela que em nada desmente a superioridade do Espírito cujo nome a encabeça.

A consequência[10] a tirar destes princípios é que, fora das questões morais, não se deve acolher o que vem dos Espíritos senão com reservas e, em todos os casos, jamais aceitá-las sem exame. Daí decorre a necessidade de se ter a maior circunspeção[11] na publicação dos escritos emanados dessa fonte, sobretudo quando, pela estranheza das doutrinas que encerram, ou pela incoerência das ideias, podem prestar-se ao ridículo. É preciso desconfiar do pendor[12] de certos Espíritos para as ideias sistemáticas, e do amor-próprio que buscam espalhar. Assim, é sobretudo nas teorias científicas que precisa haver extrema prudência, guardando-se de dar precipitadamente como verdades sistemas por vezes mais sedutores que reais, e que, cedo ou tarde, podem receber um desmentido oficial. Que sejam apresentados como probabilidades, se forem lógicos, e como podendo servir de base para observações ulteriores, admite-se; mas seria imprudência tomá-los prematuramente como artigos de fé. Diz um provérbio: Nada é mais perigoso do que um amigo imprudente. Ora, é o caso dos que, no Espiritismo, se deixam levar por um zelo mais ardente que refletido[13].

Após cuidadosa leitura e profunda meditação, João se acercou da ampla janela de seu quarto, se pôs a respirar profundamente a longos haustos, olhou na direção do infinito e em pensamento rendeu graças ao Criador por lhe ter permitido conhecer o Espiritismo.

[1] Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeou boa semente no seu campo; mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou joio no meio do trigo, e retirou-se. Quando, porém, a erva cresceu e começou a espigar, então apareceu também o joio. Chegaram, pois, os servos do proprietário, e disseram-lhe: Senhor, não semeaste no teu campo boa semente? Donde, pois, vem o joio? Respondeu-lhes: Algum inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres, pois, que vamos arrancá-lo? Ele, porém, disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis com ele também o trigo. Deixai crescer ambos juntos até a ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro. (Mateus, 13, 2 a 30)


[2] Revista Espírita, julho de 1860. Edição FEB


[3] Idem, idem


[4] Clara; precisa


[5] Ditado; provérbio


[6] Contaminada


[7] Imitar


[8] Infantilidade; criancice


[9] Inautêntica; falsa


[10] Ensinamento


[11] Cautela


[12] Tendência


[13] Revista Espírita, julho de 1860. Edição FEB

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