Atualizado: Mar 1

Quando penetramos no aposento íntimo do abastado comerciante João de Toledo, estavam à mostra as folhas do diário em que lançara, do próprio punho, as resumidas anotações das próprias atividades nas duas últimas semanas daquele mês de abril:


17 - Acordei hoje sobressaltado. Sonhei estar abraçando meu pai, morto há vinte anos. Não era precisamente um sonho. Era uma perfeita visão, dentro do quarto, mas compreendo a elucidação, pois comi lombo de porco à ceia, com boa rega de vinho verde. Ao almoço, contei o sucedido a minha mulher que acredita numa comunicação espiritual. Ora, ora! Crendices! Etelvina, apesar de boa esposa, é mulher de cabeça fraca. Na parte da tarde, consegui armazenar mais duzentos sacos de arroz, completando o total de mil e quinhentos.


18 - Etelvina amanheceu nervosa, chorando. Disse haver sonhado também com meu pai, a rogar-me serviço à beneficência. Dizia que o velho chegara a indicar o cofre, repetindo o meu nome em voz alta. Baboseiras de minha mulher. Ela não bebe e come pouco, mas é impressionável. Bastou que eu falasse de sonho à mesa para que igualmente se iludisse, a respeito de comunicações. Consegui adquirir mais trezentos sacos de feijão imunizado.


19 - Nova choradeira de minha mulher. Declarou ter visto meu pai morto (oh! estupidez humana!) e pediu em levá-la a um Centro Espírita. Neguei. Se as coisas continuarem dessa forma, devo levá-la a um psiquiatra. Dei um pulo a Caxias e obtive a promessa de mais cento e oitenta sacos de arroz. Ótimo preço.


20 - Uma comissão de pessoas religiosas veio hoje a minha casa insinuando a concessão de um dos meus lotes na cidade para o levantamento de uma casa destinada ao amparo de crianças vadias. Achei muita graça. Se querem posses que vão trabalhar. Virei-me quanto pude e comprei mais duzentos e vinte sacos de arroz, somando o total de mil e novecentos nos meus quatro galpões. Dentro de um a dois meses, a alta será compensadora. Pretendo adquirir mais imóveis.


21 - Passei o dia em Niterói, articulando com amigos a compra de quinhentos sacos de arroz paulista, do melhor. Margem excelente. O artigo chegará em caminhões.


22 - Etelvina passou o dia chorando. Disse ter visto meu pai a recomendar-me auxílio para as crianças necessitadas. Não compreendo. Meu pai morreu há muito tempo. Minha mulher quer ir a um Centro Espírita. Que vá sozinha. Não creio em bobagem. Ouvi vários atacadistas. O arroz subirá assustadoramente, depois da safra.


23 - Bolas! Etelvina veio do Centro Espírita com um papelucho escrito, dizendo ser comunicação de meu pai. A assinatura é a do velho. Pede para que eu assente a cabeça, a fim de cultivar a saúde. Fala em caridade, repouso, meditação! Ora essa! Sou um homem conhecido. Esses espíritas devem ser grandes velhacos. Proibi Etelvina de qualquer novo entendimento com esses mandriões. Amanhã, imitarão a letra de meu pai para arrancar-me o dinheiro. Tudo isso deve ser chantagem religiosa. Mensagem! O conto da mensagem, isso é o que é. Não sou tão lorpa. Recebemos quatrocentos sacos de arroz paulista. Verdadeira pechincha. Tudo indica bons lucros.


24 - Armazenei mais seiscentos sacos de feijão. Estoque excelente. Vantagens imediatas.


25 - Etelvina no mesmo choro em casa, declarando estar vendo meu pai constantemente. Isso é de enlouquecer. Os negócios me tomam tempo, sem que eu possa conduzi-la a tratamento. Os empregados querem aumento. Era o que faltava. Não dou um vintém. Rua para quem reclamar. Comprei mais seiscentos sacos de arroz brunido para saída breve. Espero cinco milhões em maio próximo.


26 - Chegada de mil e oitocentos sacos de arroz paulista. Acompanhei a descarga pessoalmente. Suei como estivador. Lucro certo.


27 - Uma senhora espírita com dez crianças veio procurar-me no armazém com uma lista de auxílio. Não assinei. Vi tudo. Etelvina no Centro atraiu a exploração. A senhora acabou solicitando um saco de arroz, mas aconselhei-a a levar os meninos para a Baixada e plantar. Caridade é manto de vagabundos. Comprei mais oitocentos sacos de feijão de Minas.


28 - Minha mulher piora, dia a dia. Contei ao meu gerente o que se passa e ele me falou que é mediunidade. Até ele! Não sei se um homem de bem, falando nisso, dá para rir ou pensar. Consegui mais quinhentos sacos de arroz.


29 - Passei o dia comprando mais feijão. A praça começa os primeiros sinais de alta.


30 - Etelvina quis conversar hoje em novas lições de meu pai e mandei que calasse a boca. Não quero comunicações, não quero notícia de mortos. Vou interná-la amanhã numa clínica de repouso, em Santa Tereza. Quero sossego. Meus representantes estão autorizados a começar as vendas depois de amanhã. Estaremos até a noite nos armazéns, recolhendo novas remessas do arroz que chegará de São Paulo. Uma frota de quarenta caminhões. Até vinte de maio próximo, espero o lucro de cinco a seis milhões para começar, em mínima.


Estas eram as últimas notas do abastado negociante Pedro João de Toledo quando lhe vimos enfim no lar o corpo maduro e hirto, que tombara repentinamente na rua, depois de algumas horas em trânsito agitado para averiguações no necrotério.



Autor: Irmão X (Humberto de Campos - Espírito)

Médium: Francisco Cândido Xavier

Livro: Histórias e Anotações. Lição nº 04. Página 31

Atualizado: Mar 1

Ondas mentais enxameiam por toda parte.


Não é necessário te definas em tarefas especiais, nos círculos mediúnicos, para transmitires o pensamento de entidades outras.


Particularmente, quando falas, exprimes as inclinações e opiniões de inteligências diversas.


Sentes, pensas, ouves, lês e observas e, em qualquer desses estados de alma, assimilas influências alheias.


Medita, assim, na função da palavra que despedes.


Cada peça verbal pode ser comparada a certo veículo de essências mentais determinadas.


A preleção edificante é lâmpada acesa.


A conversa maledicente é prato de lama.


O reparo confortador é bálsamo de coragem.


A indicação caluniosa é poção corrosiva.


A nota de fraternidade é injeção de bom ânimo.


O gracejo inoportuno é dissolvente da responsabilidade.


O registro da compreensão é recurso calmante.


A anedota deprimente é coagulante do vício.


A frase amiga é copo de água pura.


O apontamento pessimista é drágea de veneno.


Cada vez que dizes algo, refletes, a teu modo, alguém ou alguma coisa.


Idéias inúmeras de Espíritos encarnados e desencarnados podem fazer ninho em tua boca.


A língua, de certa forma, é um alto-falante.


Repara a onda que sintonizas.


Autor: Emmanuel (Espírito)

Médium: Francisco Cândido Xavier

Livro: Seara dos Médiuns. Lição nº 81. Página 215.

1 visualização

Atualizado: Mar 1

Médiuns desertores não são apenas aqueles que deixam de transmitir com fidelidade sinais e palavras, avisos e observações da Esfera Espiritual para a Esfera Física.


De criatura a criatura flui a corrente da vida e todos nós, encarnados e desencarnados de qualquer condição, estamos conclamados a lutar pela vitória do Bem Eterno.


Desertores são igualmente:


- Os que armazenam o pão, sem proveito justo, convertendo cereais em cifrões vazios;


- Os que pregam virtudes religiosas e sociais, acolhendo-se em trincheiras de usura;


- Os que fecham escolas, escancarando prisões;


- Os que transformam as chaves da Ciência em gazuas douradas;


- Os que levantam casas de socorro, desviando recursos que deveriam ser aplicados para sanar as dores do próximo;


- Os que exterminam crianças em formação, garantindo a impunidade, no silêncio das próprias vítimas;


- As mães que, sem motivo, emudecem as trompas da vida no santuário do próprio corpo, embriagando-se de prazeres que vão estuar na loucura;


- Os que aviltam a inteligência, vendendo emoções na feira do vício;


- Os que se afogam lentamente no álcool;


- Os que matam o tempo para que o tempo não lhes dê responsabilidade;


- Os que passam as horas censurando atitudes de outrem, olvidando os deveres que lhes competem;


- Os que andam no mundo com todos os desejos satisfeitos;


- Os que não sentem necessidade de trabalhar;


- Os que clamam contra a ingratidão sem examinar os problemas dos supostos ingratos;


- Os que julgam comprar o céu, entregando um vintém ao serviço da caridade e reservando milhões para enlouquecer os próprios descendentes, nos inventários de sangue e ódio;


- Os que condenam e amaldiçoam, ao invés de compreender e abençoar;


- Os que perderam a simplicidade e precisam de uma torre de marfim para viver;


- Os que se fazem peso morto, dificultando o curso das boas obras...


Deserção!... Deserção!...


Se trazemos semelhante chaga, corrigenda para nós!...


E se a vemos nos outros, compaixão para eles!...


Autor: Emmanuel (Espírito)

Médium: Francisco Cândido Xavier

Livro: Seara dos Médiuns. Lição nº 34. Página 113.

2 visualizações

Entre em contato conosco caso sua dúvida não tenha sido contemplada entre os itens apresentados aqui.

©2018 por Pensar Espírita.